Sobre o que falávamos? Monogamia?
A regra de dormir lado a lado na mesma cama todo dia?
Poligamia? Ou falávamos da infectocontagiosa mania
de amar toda boca que nos sorria?
Drummond escreveu o poema quadrilha. Aquele que diz de alguém que ama alguém que ama outro alguém e outro que ama e outro e mais amor e uma que não amava ninguém e outro que viaja e um mais que nunca entrou na história. Fim. Ou começo. Hoje decidi falar de amor (armada até os dentes, com lírios, rosas e estrelas cadentes). Romântico, não? Clichê? Não sei. Sei apenas que amor não é forca ou alavanca de segurança quando o trem emperra. Amor é o que acontece entre dois, se prolifera entre quatro paredes (ou cinco) e se encerra em amizade ou continua em falsidade. Mas existe amor que morre de fome e desiste e decide amar outro amor. "Amor então também acaba?", o Leminski interroga sempre em suas palavras. Amor morre e se transforma em uma pilha de cartas, roupas deixadas para trás, adeus com gosto de cólera e um tal de mudar a mobília de lugar. Eu já amei algumas pessoas. Não muitas. E também já desisti de amar algumas outras. Mas a culpa não foi do mordomo. Não há culpados nem coitados. Talvez eu não saiba amar. Será que amor é dizer "te amo" o tempo todo como se isso fosse encher barriga? Tudo bem. Acredito que sejamos seres em busca de experiências (ratos de laboratório?). Mas muito me surpreende a facilidade com que as pessoas amam hoje em dia. Será a globalização ou a velocidade da internet? Estamos acompanhando cada passo da evolução tecnológica e amor se tornou artigo de troca sem nota fiscal porque é coisa dada de presente. Eu não sei você, mas eu, lascívia escaldada, olho o dente dos cavalos que me são dados. Duvido sempre. E duvido muito de quem ama todo mundo. Há quem viva amando. Mas é tanto amor que não sobra pedaço para viver o dia seguinte. Amo você, Eduardo. Amo você, Amanda. Amo você, Cláudio. Amo você, Fulana Que Mal Conheço. Mas te amo. E isso é tudo. Não, isso não é tudo. Amor não é fim de uma busca. Amor é início. Mesmo que ele acabe um dia, é caça, e precisa ser devorado (mas que seja pedaço por pedaço ― nunca se come o amor todo de uma vez). E não se ama milhares ao mesmo tempo. A não ser que seja amor fraterno e alguém acorde acreditando ser Madre Teresa. Para este tipo de amor há explicação. Mas, para o outro amor, aquele que sofre solidão nas ausências, prepara a mesa, compra presente a sente ciúme, não. Pode-se amar um ou dois ou três. Mas há sempre um número limite porque, um dia chega, e o "amador" passa a ver no outro o que vê no outro e no outro e assim por diante. Tudo começa a ficar confuso e, aquele que diz que tanto ama, acaba amando nada além da mania que se torna vício de dizer que ama tanto. Ou seja, amor é reprisado assunto, é comédia romântica hollywoodiana, é preencher conjunto vazio. Mas ainda é assunto. E ninguém pode amar o mundo todo. Que haja amor. Que seja eterno até que o vinil chegue ao fim. Mas que valha cada centavo de nossa aposta. Porque certos amores, que nem chegam a ser amores, só infestam de pragas nossas crenças. Neste caso, melhor o amor próprio. Melhor a displicência.

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