anseio filosófico
Eu queria muito ser comum. Comum feito gente que come maçã. Gente que anda a pé, que odeia domingo, que sente depressão, que mata barata, que lê jornal, que assiste televisão, que paga conta, que deixa cair xícara, que ri dos outros, que vai à missa, que sente vergonha, que usa roupa do avesso, que gosta de aniversário de criança, que viaja de mala e cuia, que gosta de laranja, que conversa na calçada, que mal enxerga e, quando vê, quase nada. Gente que compra bicicleta, que faz dieta, que fecha porta e abre janela, que faz comida, que toma café, que fica doente, que acha graça, que não vê tristeza na miséria, que guarda garrafa de vinho e enche de água pra enfeitar geladeira. Eu queria guardar rancor. Queria caminhar pelo centro da cidade, visitar amigo durante o dia, cuspir no chão, brigar no trânsito, achar que poesia é bobagem e, livros, simples pesos de papel. Queria não sentir rubor. Eu só queria seguir a regra. Ser gente feita de perfeita matéria e homem feliz com a vida milimetrado feito régua. E, se possível, saber exatamente o que sou.
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