sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

alto teor erótico

Meu amor achou pouco o que eu havia lhe dado: muita promessa de te amar somente. Então me pediu fotos. Meu rosto? Cabelos cobrindo os olhos? Não, ele respondeu. Quero fotos suas, nua, maliciosa em múltipla pose erótica. Após negar ao pedido uma vez, cedi. Afinal, quem nunca tirou fotos assim, explícitas, que atire a primeira pedra (nossa! quanta pedra!). Take One : sala de estar. Vestida para matar, dou um click. Olho a foto abismada: Eu sou assim? Gostei de mim. Outro click. Desta vez, fiz cara e boca. Mas não estou fazendo o suficiente. Preciso ir mais longe. Visto lingerie pinicante desconfortável que entra na bunda (bunda é uma palavra feia). Preparo a câmera: click – click – click – click – click. Olho as fotos. Morta de vergonha por me ver nua, de bunda pra cima, despudorada. Mas a vergonha desaparece quando percebo: sou gostosa. Quase berro. Agora entendo as falas dos caras quando passo de cabeça baixa pelas construções. Homens nem sempre estão errados. Um risinho me explode de satisfação. Meu coração palpita pedinte: + fotos + fotos + fotos + fotos. Estou muito puritana. Assumo a cara Kátia Flávia impávida Leila Diniz. Take Two: quarto. Cama forrada por colcha de retalhos. Posiciono a câmera. Agora mostro tudo. Pernas abertas e a vagina se expõe (vagina é um termo tão científico). Como devo chamá-la? Penso em mil nomes. Decido esquecer os nomes. Uma sequência de fotos em pose equina. Agora o falsete de menina. Mais cara e muita boca. Sem roupa. Loucura sem plateia. Olho as fotos e já me amo mais. Outras fotos e mais amor. Agora de ɐçǝqɐɔ ɐɹd oxıɐq. Meu corpo se contorce entre os clicks surdos, mudos, erotizados, pornográficos. Mais fotos, mais fotos, mais fotos. E que se dane o receio. Talvez um vídeo seja melhor. Luz, câmera, ação. Dedos não servem apenas para apontar falhas alheias. Veja o que faço com os meus. Fundo, raso, profundo, afundo, filmando, afoita, liberada, filmando, gostando, amando?, seios, dedos, mãos, eu... orgasmo? Tão rápido? Exterminada de amor, permaneço deitada na cama. A câmera continua filmando. Respiro fundo. Revejo as fotos: uma a uma. Assisto ao vídeo. Esquisito me ver assim (vadia?) pausando para rever o gozo. Então é isto o tal autoconhecimento? Email – Photo – Upload. Meu amor vai saber o quanto posso ser maliciosa, carnuda (babaca?). Envio as fotos. Sem photoshop: no cru. E o vídeo vai em anexo. Tudojunto. No email, uma dedicatória dramatizada romântica, piegas, clichê: uma letra do Cazuza. Coro ao saber que ele me verá tão aberta, tão outra, não eu. Ou eu serei mesmo assim? Outro risinho me assola. Agora ele me tem inteira. Dias passam e, para minha surpresa, outro pedido: quero mais fotos. Tantas e mais explícitas. Pasmei. Como poderei ser mais explícita? Como poderá ser? E a fome terá fim? E o amor segue virtual: sem toque, sem gosto, sem razão, despudoradamente amante ausente em alta resolução.

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