sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

sob o vadio olhar dos cães.


Conheci uma mulher muito bonita. Creio que posso afirmar ter sido uma das mulheres mais belas que já vi. Pernas grossas, cabelos negros, olhos curiosos e cerejas tatuadas em seu pulso esquerdo. Eu estava sentado ao balcão. Ela ia e vinha buscar sua bebida. Sorriso aberto de boca avermelhada de batom. Deixou marca no copo após beber seu uísque. Diversas doses. Dançou como se celebrasse seu corpo e me olhava de um jeito que só mesmo o diabo enfrentaria deus. Eu ruborizei minha cara pela mulher. Eu, um homem já crescido, vencido por beleza sem nome. E ela dançava enguia em minha mira e todos a olhavam. Senti ciúme. Eu, que sequer a conhecia, já sentia ciúme. Um cara se aproximou e tocou o ombro da mulher. Ela me olhou como uma criança que pede permissão para brincar. Assenti com a cabeça e sorri. Ela dançou com o cara. Duas músicas. Enchi meus olhos ao vê-la se equilibrando em salto alto. Eu entregaria tudo por ela. Naquela noite, nesta vida, a todo tempo, tudo. Mais uísque e outra música. Eu já amava a mulher que me olhava serpente ébria dançando por todo o bar. Nos olhávamos com desejo. Era como se nos conhecêssemos. Já éramos cúmplices de um crime sem culpas. Senti que já era hora de fazer algo. Saber seu nome, ouvir sua voz, olhar nos olhos. Talvez tocar de leve o rosto. Talvez beijar-lhe a boca. Levantei e fui ao seu encontro. Ela sorriu enquanto eu caminhava em sua direção. E nos olhamos. Bem de perto. A luz fosca arroxeada do bar iluminou parte de seu rosto. Vi seu olhar. Toquei suas mãos, sua cintura, confrontei a musa eufórica. E veio a súbita vontade do beijo. Profundo do mais viril mistério. Mas hesitei. Ela me olhou compreendida. Sorrimos porque sabíamos do caminho que talvez viesse nos encontrar: paixão, medo, e todas as misérias que sufocam o que havíamos encontrado um no outro, ali, alados, de uísque loucos e embriagados. Me distanciei da mulher, paguei a conta e sai. Não olhei para trás. Estou certo de que ela também não olhou. Mas eu amei veloz a bela mulher por duas horas e alguns minutos. E já era tudo. Sei que outro dia vou dar de cara com mulheres mais belas em outros bares. E ela vai estar com outros caras. Melhor mesmo não termos fincado passo de apaixonados abobalhados desperdiçando o que vivemos. Agora somos eternos pelo adiado evento. Era tarde e as ruas estavam vazias. Voltei para casa inebriado sob o vadio olhar dos cães.

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