sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Procuro-te

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura 
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite 
esplêndida e vasta. 
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado.
 Quando, 
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado 
pelo pressentir de um tempo distante, 
e na terra crescida os homens entoam a vindima 
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
 
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros 
ao lado do espaço 
e o coração é uma semente inventada 
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, 
tu arrebatas os caminhos da minha solidão 
como se toda a casa ardesse pousada na noite. 
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
 
Quando as crianças acordam nas luas espantadas 
que às vezes se despenham no meio do tempo 
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
 

Durante a Primavera inteira aprendo 
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstrato 
correr do espaço 
-E penso que vou dizer algo cheio de razãomas quando a sombra cai da curva sôfrega 
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave
 qualquer coisa 
extraordinária. 

Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
 

que te procuram.



[Herberto Hélder]

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