sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

permissiva



"O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentidos, que morre com o objetivar-se, sem lograr atingir aquela altura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade."


(Anayde Beiriz)



Eu amo você porque assim eu o quis. Construí, de fronteiriças artimanhas, nossa história começada em datada hora e terminada nunca. Imenso adorno para meu corpo é o que sinto e demanda solidão o amor para que este possa existir. Não sou peixe furtado de mar algum. Não houve maior arrebatamento do que aquele momento em que vi, de olhar inédito, o meu amor que era homem e tão ingênuo por acreditar estar conquistando territórios com suas guerras de inefável aspecto infantil. Homem criança que acolhi em meu ventre negando minha presença a outros seres que nunca me causaram estrondo ao ressoarem em meu ouvido palavras de não sentir. Eu não os desejava viver. E o avistei diferente de todos porque era minha vontade enxergá-lo e possuir a alma desassossegada deste pastor que condena rebanhos e nunca sabe de si. Se você pudesse, por um breve minuto, enxergar-lhe a imagem sua como eu a vejo, saberia de meu canto, da razão pela qual o amo, criatura de centelha incendiada, eu o escolhi. E não me vulgarize a existência dizendo de amor como quem declara rimas matemáticas. Sua poesia me absorveu a palavra. Porém, não foram seus versos que me fizeram o calvário de amar desenfreada e escandalosa. Fui tomada por sua imagem, seus gestos, seus olhos dignos de compaixão e sua brutalidade mesquinha ao negar-me a posição de mulher. Amo intensa a meu próprio gosto. De erótica necessidade envergonhei meu nome, meu rosto e adulterei meu caminho porque era esta a minha escolha. Disto sempre me alimento. Se amor é mesmo algo que nos destrói a estrutura, desejei que fosse você o feitor desta maldade. Mas que fique tão claro quanto em asfalto o risco de giz. Eu amo você porque assim eu o quis.

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