sexta-feira, 2 de julho de 2010

Profundidade humana.

A de algumas pessoas equivale à de uma poça d'água.
Não.
Minto.
É muito, muito mais rasa.

Estranho e obscuro objeto de desejo.

Não está em você.
Não.
Está em mim, e no que projeto de mim em você.
E no quanto do que espero de mim, possa encontrar em você.
Para que talvez o amar você revele-me quem sou, e como sou, porque o quero.
E não o quero como fonte inesgotável de virtudes, mas como o poço sem fim de faltas, culpas e transgressões.
Não o quero perfeito, porque perfeito não caberia em meus sonhos.
Quero-o assim, por inteiro.
O homem, e o menino.
O passeio entre o belo e o repugnante.
Quero-o real.
E é tão real que eu o queira. Tanto!
Ainda que o real seja apenas e tão somente um sonho.
E isso, está em nós.

Lucidez silenciosa.

Apagou as luzes. Primeiro a da luminária, depois a do abajur.
Permaneceu ali, deitada, as mãos cruzadas sobre o peito, os olhos revirando-se inquietos sob as pálpebras cerradas.
Imaginou-os como bolas de plástico boiando em uma piscina.
A piscina eram as lágrimas.
Riu enquanto chorava, de si mesma e da capacidade de pensar tais desvarios.
As lágrimas ensoparam o travesseiro.
Incomodada, trocou o travesseiro.
Sentia-se esmaecer.
Chorar deixava-a invariavelmente esgotada, exaurida.
Depois de choradas as decepções, lembrou-se da consulta no dentista marcada para a manhã seguinte, os livros a retornar na biblioteca, o cartão a enviar, a entrevista a comparecer.
E se o mundo acabasse agora, pensava, não teria feito nem a metade do que desejava.
Não por impossibilidade, mas por ausência de coragem.
E se fosse aquele o dia em que seus olhos irrequietos se fechassem para a vida,
quem dera soubesse que espécie de fraude, imbele e covarde, teria sido.
Não saberia dizer.
Não soube.
Adormeceu antes que pudesse perceber o travesseiro molhado que as lágrimas haviam encharcado outra vez.

O Amor e suas dores.

"A dor de não amar será como o veneno da serpente, que mata assim, quase de repente? Não, a dor de quem não ama é fria morte lenta, é um afogar-se em degelos glaciais e, dia a dia, sentir o coração parando aos poucos, até o ser inteiro se desfazer em transparências.
Ah... mas a alegria de amar é tão diferente!
É mergulhar no riso mais contente, morder um chocolate que se dissolve na língua, saborosamente, ora doce, ora amargo, sempre surpreendente! E mesmo o amor não correspondido é preferível ao inexistente, pois a dor de não ter a pessoa amada, ainda que seja dor profunda, desesperada, ao menos mantém a alma quente..."

Da alegria.

Posso jurar que um dia meus olhos já brilharam de alegria.
Não quando meu filho nasceu.
Não.
Neste dia a dor física, e a emocional, me castigaram tanto que eu já nem sabia se
ainda queria continuar vivendo.
Mas quando o segurei pela primeira vez em meus braços.
Quando eu finalmente compreendi, que daquele dia em diante,
eu não estava mais só.
Naquele dia, e em cada dia que se seguiu desde então,
toda vez que meus olhos se fecham na intenção de uma lágrima, eu lembro.
Não, eu não estou mais só.

Novo visual, novas idéias, recomeço.
Para mim, de certa forma, o ano se inicia agora.
Aberta para o novo, o inesperado, e para o mais do que esperado também.
Fechei-me como numa concha.
Afastei-me dos amigos, da família até.
Tornei-me uma pessoa quase insuportável de se conviver.
Quase. Alguns poucos que se arriscaram a se aproximar acabaram por descobrir que eu não mordo, não lato, nem rasgo dinheiro. E parecem aliviados!!
Estou retomando as atividades deixadas de lado, com todo o cuidado.
Dentre elas o exercício de pensar e escrever aqui no blog.
Se tudo correr como eu espero, dentro de pouco tempo terei grandes novidades.

The blues of blue

As luzes feriam-lhe os olhos
Vermelhas, intensas, gritantes, suspensas

Up there is just a sea of possibilities
There is no sea but the sea
Up there is a wall of possibilities
There is no keeper but the key


Rodava, e rodava, e rodava
E ria, ria muito e ria alto
E chorava, e cantava
E as lágrimas tinham o gosto do sangue

The scream he made (and my heart) was so high (my heart) pitched that nobody heard,
No one heard that cry


Ninguém,
ninguém ouviu aquele choro, aquele grito.
Acordou.