sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A VIDA, POR UM FIO DE BRISA.

Um sereno de prata polvilha as ruas com minúsculas partículas de bruma. Via-se o contorno da mulher sem rosto. Movendo-se com a sinuosidade de uma serpente, da água-neve, o ventre da cidade emerge. Esperei seguidas horas, até que o lenço da tarde secasse aquelas lágrimas que pingavam com hostilidade à minha volta.
Por um breve instante, no firmamento, uma luz brilhou como o farol de Alexandria. Ressurgia o sol envolto num halo luminoso. E seguiu em silêncio, como um pastor órfão.
Aproveitei aquele momento mágico e raro de estio, intuindo que, longe daquela melancolia cinzenta que havia furtado as cores dos rostos, eu pudesse sair às ruas para me perder entre os labirintos infinitos de casas, prédios e bairros, pouco importando se escaparia ou não de seus domínios.
Nunca saía de casa e, quando o fazia, sentia-me cercada de gente vazia e sempre encontrava algum pretexto para me refugiar neste quarto que, comparado a estreiteza daqueles becos cheios de cicatrizes na alma, ganhava dimensões palacianas. E, como sempre, voltava para o meu alento, vendo nascer, crescer e morrer corpos de musgos cujas almas, ao irromper da noite, eram levadas à força para algum invernadouro florestal e ali permaneciam até o julgamento final, sob a mão anônima de um Deus ou Diabo do mundo verde, que por obra de algum sortilégio justiceiro, decidiria por mandá-los a  uma excursão para o infinito, que poderia ser tanto o Céu quanto o Inferno, acaso tivessem  praticado atos que atentassem contra o Código Vegetal de Méritos.
Em minha ingenuidade, comecei a acreditar que era filha de uma miragem, e, que se me desdobrasse, poderia ver a criatura alada balançar na sombra, enquanto esperava pela volta de sua filha pródiga. A filha da Mãe Natureza – a padroeira dos que vegetam pacientemente, mas que ainda tem esperanças de resgatar o paradigma perdido da existência humana e compreender o que exatamente atrasa a evolução da raça.
Após anos de isolamento, eu já havia adquirido fluência em conversas com animais não-perfumados e vegetais comunicantes, que, entre outras coisas, ensinaram-me um idioma de criptogramas envolvendo cheiros, gostos, toques, imagens, ecos, e, àquela altura do torneio de quem silenciaria por mais tempo, eu já falava uma linguagem de sensações próprias dos habitantes do eremitério.
Ansiando, talvez, por um aceno, nesta manhã parei em frente aquele prédio. Por alguma razão, a vidraça não exibiu teu reflexo. Quis devolver-lhe a chave, mas o coração indicou que (a)guardasse.
Em mais de uma ocasião perguntei-me se o melhor não seria atear fogo naquele palácio de memórias e me consumir com aquela maldição gótica. Talvez a alma daquele lugar tivesse expulsado a minha para ocupá-la com o próprio vazio e meu verdadeiro espírito agora ande pelos palanques das praças, confabulando ideologias de mortos-vivos com um público de estátuas falantes que caíram em alguma fossa oca de mármore, sem que nenhuma delas ainda tivesse suspeitado disso.
Às vezes faz sombra em minha escrivaninha. Normalmente, durante as madrugadas. Desliza sigilosamente para o quarto, deita-se na cama e ali fica. Em silêncio, acaricio a sombra, mas não ouso tocá-la. Apenas sigo o suave balanço. Temo que ao menor toque, tua miragem se evapore.
Passei a tarde inteira dando voltas por aquela praça, à sua espera. Lembro que, a certa altura, uma silhueta recurvada, segurando nas mãos uma lanterna parcialmente coberta por uma capa afastou as cortinas. Um sentinela reluzente de silêncio aparecia na sacada do prédio como a maior alucinação do universo. Meus olhos impregnados de névoa inundaram os seus, no instante exato em que a língua esventrou o mais gravídico: V-o-l-t-a. Mas a miragem esfumou-se antes que pudesse dizer qualquer coisa. Não havia ninguém lá. Ninguém. Apenas uma trilha de cinzas soçobrando entre fragatas encouraçadas das pálpebras.
Naquele mesmo instante, a cidade libertou-se de sua fantasia de oriente, convertendo-se em uma espécie de lenda negra com cabeça, queixo, ombro, quadril e coxas que caíam em um sono pesado, de desistências.
Permanecemos ali um bom tempo em silêncio, eu e a cidade, contemplando, imóveis, aquele espetáculo de inquietações. Esbocei um sorriso emoldurado de alento, rogando para que as luzes amarelecidas da penumbra fossem as únicas testemunhas presenciais de minha apreensão, ao ver aquela cidade abandonar seu posto de feiticeira para cair na tentação  de estrear como "póet brilho" de um "Valse Sentimental", rescaldo de uma nota que emudeceu,  ao ver seu idealizador circundar para um túnel de luzes negras ou cinzentas, correndo, sereno, ao encontro de uma melodia que teve que fugir às pressas para não cair na mesma fulguração melancólica de "Belle Epoqué", às expensas da glória, já que ele nunca chegou a orquestrar seu "Grand Finale".
Embruxada, a cidade catalogava seu reflexo trincado sobre aquela galeria de espelhos que a chuva formava, embaralhando perguntas em poças que só faziam afundar as respostas. O melhor era deixar que  fossem embora junto com a enxurrada. Esfolava-lhe as retinas não passar pela prova de auditoria do revérbero alheio. E como era difícil  perdoar a negação do outro no espelho, exigir que nos queira de uma maneira outra que não a nossa. Tudo isso, é apenas para dizer, talvez, que às vezes a gente se cansa de tentar descortinar mundos invisíveis aos olhos dos que, por ventura, ainda estejam cegos de sentidos.
Acho que o tempo tem um plano secreto, fala um idioma de segredos, e, talvez, por esta razão, não nos seja permitido entrevê-lo. Ou talvez estejamos unidos por um fio invisível que nos faz entrelaçar destinos, em alguns casos, como o meu, de modo obsessivo. Tentando vencer a mudez, cheguei a desenhar palavras para colocar nos lábios do silêncio, com a frágil ilusão de que em algum momento, ele se arrependesse de tanta frieza e voltasse para retribuir meu gesto. É quando respeito a sabedoria do silêncio  e digo: eu acho que entendo. E me lembro que nobreza de sentimento é não sucumbir antes do tempo. A recordação é uma estação atemporal.  Não desgasta o que foi verdadeiro, porque no tempo de dentro, somos todos eternos. Já aquele outro relógio, não passa de um animal selvagem salivando a nossa carne. Não há como nos defendermos. Enquanto isso, envelhecemos.
E, se acaso me perguntarem, direi que sim. Dói, ser a personagem  que envelhece, guardando intacto o encanto de quem inventou a chuva apenas para que eu o lembrasse. Há noites em que os pingos da chuva caem na forma de centenas de milhares de sabres espelhados, desembainhados por um feixe de luz contínuo a circunscrever com fios brilhantes, um nome que foi perdido no horizonte. A vida, por um fio de brisa. Recordo agora, ele não era apenas um homem de quem eu me lembrava. Era, antes, o homem com quem sonhava. Eu continuarei segurando a tua mão. Com força. Até quando, não importa.  
Não é sempre, mas às vezes, me debruço na janela e deixo que aqueles festivais eletrizantes de faíscas me atravessem e, quando isso acontece, me salpicam, de tanto de brilho. Éramos nós dois ali, sendo, aos alampejos. E diante de toda intermitência que a natureza representa, gosto de pensar que seja   para sacudir o peso destes silêncios que nos tem atrofiado os movimentos. Meu coração se enternece em, depois de tudo o que passamos juntos, poder suspirar-te assim, tão alumbradamente.
Ainda há pouco, no firmamento, um raio esfaqueou o céu. Como se tivesse sido assaltado por uma fraqueza súbita, seu rosto empalideceu. Das alturas, tomba o azul, já sem forças. Sempre tive receio que essa chuva não fosse deixá-lo ser meu, e que se você não fosse dela, também não seria de mais ninguém.
Há tardes, como estas, de quase dezembro, em que os pingos da chuva a mim se misturam. E caem com tanta força que fazem mossas na madeira cinzelada da memória. E Chovo. Chovo lagos, rios, e se for preciso, até oceanos, para que juntos, possamos  navegar neste sonho. Mas recobro a serenidade e reconheço teus olhos na contra-luz do relâmpago. E descubro com nitidez, que em mim, é você quem chove. E te aceno em rebentos, pelo milagre desta flor que só medrou, graças à sede que sua tempestuosidade serviu a este amor de raízes. Porque te lembro em segredo. Vi quando guardou as pétalas que escaparam do meu vestido, achando que eu não estava vendo. Guardou num pote, que para relembrar o perfume, de vez em quando, abre a tampa. É quando surgem do nada, todas as borboletas. E pousam mágicas, no jardim da nossa história.
A brisa do passado sempre volta para nos acariciar o rosto, como se quisesse nos descobrir novamente em um sopro. Quem sabe, seja para recordar as crianças de espírito que ainda nos habitam. E arriscaria dizer que, deve ser este o motivo para que dentro de  nós haja tantos ruídos. Talvez elas queiram apenas ter com quem brincar, devem se sentir mesmo muito sozinhas.
E a menina, invisível, balança sua saia-de-chita e gira até ficar tonta sob o sereno de prata. Pisa no ar, leva um susto e pára. Era só teu rosto, me vendo: toda iluminada.
Assistindo a chuva de mil tons que cai atrás das vidraças.
É tanto céu, que derrama.


Lidia  Martins

4 comentários:

  1. Este texto é da Lidia Martins! Não vão dar o crédito???

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  2. Texto de autoria da Lidia Martins http://agentepodiasevernoar.blogspot.com/

    Crédito já!!!

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  3. Inclusive tive o privilégio de acompanhar este texto de Lídia Martins desde os rascunhos.

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  4. Lidia Martins é rainha e escreve muito! compreendo que gostarias de ter um terço do talento dela, mas não tens, então coloque crédito.

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