domingo, 1 de novembro de 2009

(Des)acreditando

Existe mesmo? Eterno? À primeira vista?
A ponto de não se saber onde termina um e começa o outro?
Ora... se eu duvido?
Não. Apenas não acredito.
E não me cabem julgamentos, pois o que são os sentimentais de hoje, se não os céticos de amanhã?

Tempestade

Ai, voltou a chuva
E devolveu meus bens,
Meu bem...
Caiu e te choveu em mim.
Chegou ao fim.
Mas veio fina, fina...
O que ela leva embora
Não traz tão fácil assim.
E eu não quero sair
Tão seca daqui...
Vou abrir os braços e esperar.
Tá na chuva, é pra se molhar.
Não quero nada pela metade.
Eu quero é tempestade!

Agora


Engraçado como coisas aparentemente desconexas nas nossas vidas acabam se interligando de formas tão inusitadas e tão banais, mas que nos tocam tanto. O antes e o depois se presenteiam com risos escondidos e asas de papel, e se encontram num lugar distante do agora, e onde? Onde... dentro de quem? O líquido no qual eu quis me transformar escorre pelos degraus e encontra histórias caídas no chão, e cria novas marcas e novos caminhos. E é sempre assim... Na mesma fita, duas pontas que não se tocam, e constroem um laço perfeito. Pessoas se confundem, histórias se misturam num somatório desordenado de sentimentos e, no final, tudo se transforma em uma coisa só. Nesse ritmo, vou aprendendo o que todos sabem... Parece mentira, historinha inventada, tantas peças encaixadas, coisa de filme... Mas a conclusão de hoje é que, definitivamente, a arte imita a vida.

Pela liberdade de não-expressão

Dispo-me. De qualquer mentira, de qualquer barreira. Entrego-me ao mundo como ele me foi entregue: nua, a colecionar infinitos. Sem máscara, sem proteção. Com a cara lavada, saio às ruas ondulando minha bandeira, exibindo as cores da minha não-causa, cantando meu hino desafinado pra ninguém ouvir. Sem tom, sem paixão. Até que eu descubra a letra.

sobre lidar com a perda (do que nunca se teve)



Pronto, aceitei. Sério sei que demorou, que eu fiquei um bom tempo tentando encontrar motivos, que por muitos meses eu culpei a mudança, não quis enxergar. Tentei me iludir por medo de perder o que eu considerava um porto seguro, e neguei até a última que sempre foi assim, que o circo já estava armado muito antes de eu chegar. Bá, eu tentei. Mas agora já vi que eu era só mais um carrinho da montanha-russa, e que ela tem uma cor pra cada vagão. Foi difícil e, agora, o meu maior medo é que eu não sinta nenhuma falta. Sabe? Porque eu nunca tive, mesmo. Eu tive um personagem, criado só pra mim, uma máscara que era usada dia e noite, e até mudava um pouco de acordo com a luz. Mas nada além de uma máscara pintada com minhas cores preferidas, que alguém usou por um tempo, e então substituiu por outra e deixou largada no canto da sala.

Grito Silencioso

Eu não entendo a ausência. Ela faz a gente sentir falta do que ainda tem, e do que nunca teve. Faz o silêncio dar eco, o invisível ficar borrado. A urgência desesperada de quem aguarda o desconhecido, sem distração, ou a intensificação distanciada de algo que já não era presente, o simples corte das possibilidades raramente bem aproveitadas. Quando as palavras são um refúgio e, de repente, não são mais suficientes... algo errado. Eu quero a cura, eu quero a calma. Eu quero aquietar esse monstro que viu em mim um abrigo nos últimos dias. O que diabos há de errado comigo? Tudo está bem. Tudo está como eu queria, como eu poderia querer. Mas falta. Falta aquilo, aquela coisa que eu já me acostumei a não saber o que é. Falta você, e você, e falto eu e mais você também. Mais alguns vocês. E eu sinto ausência. Uma ausência que não pode ser alimentada somente de presença. Precisa mais. Precisa um daqueles momentos de comunhão, de compreensão, de cumplicidade e de tantas outras coisas que também não podem se espremer em palavras. Eu preciso. Tanto. Preciso calar essa besta desvairada que me arranha por dentro com unhas de vidro, que me faz sangrar um sangue que acabou de reaprender o caminho ao coração que não pulsava. Asas podadas. Nunca antes o tamanho do mundo havia me incomodado tanto quanto ultimamente. Eu não sabia... que o mundo lá fora podia ser maior do que este aqui dentro. E que esses dois mundos podiam se fundir desse jeito. E que, depois de misturados, era tão difícil separar.

Pois é

O pensamento calou, assim, de repente. Logo o dela. Ela, que sempre se alimentou deles como um carro se alimenta do combustível. E, de repente, o clichê pareceu novo, como deve ser. Como deve ser, as palavras tornaram-se ineficientes, insuficientes, como costumam ser diante de algo maior. Não importava mais depois de amanhã. Pela primeira vez. Ela gostava de primeiras vezes, e de todas as vezes que parecem primeira. Era só que parecia tão certo sentir o coração dele batendo tão perto e tão forte que ela chegou a achar que era o dela, tão doce, tão desesperado que, em outros tempos, ela poderia achar que fossem um só. E o que é o tempo quando se compreende que ele só leva embora o que não foi escrito? Que o sentimento gera o ato que ecoa perpétuo no existir das coisas etéreas e divinas? O que é o medo quando está certo o agora? Eu levo comigo, e a certeza conforta tanto quanto o abraço. Realmente não importa o depois de amanhã, mesmo sabendo que ele vem, o desgraçado. Faço-me barreira para seus obstáculos, problema dele. Pode tentar levar o sorriso, a respiração, pode tentar lavar a minha cara. Sem sucesso. Porque agora eu sei - o tempo me disse - que eu consigo o que eu quero. E eu sei o que eu quero. Inédito. A fuga do clichê? Que importa? Encontrei um algo importante que apaga a importância do resto, e todo o mundo sabe que resto é resto, virou lixo porque a gente não quer mais. Vez ou duas eu pensei que quase sempre a intensidade das coisas é inversamente proporcional ao tempo que elas duram, e então percebi que o depois segue o amanhã, que é mutável. Não faz sentido, que bom. Seja como for, dure (ou não dure) o que durar.

Pois é, não deu
Deixa assim como está sereno
Pois é de Deus
Tudo aquilo que não se pode ver
E ao amanhã a gente não diz
E ao coração que teima em bater
Avisa que é de se entregar o viver

Pois é, até
Onde o destino não previu
Sem mais, atrás vou até onde eu conseguir
Deixa o amanhã e a gente sorri
Que o coração já quer descansar
Clareia minha vida, amor, no olhar.